Corpo em movimento
Corpo em movimento
Projeto de Formação Complementar envolve ensino, pesquisa e extensão, produz conhecimento e desenvolve tecnologia inovadora no estudo dos mais variados movimentos humanosO que pode haver em comum entre os atos de teclar uma mensagem no celular, chutar um pênalti, usar talheres, subir uma escada, dirigir um automóvel, mastigar, e ser um trapezista de circo? Em todos eles, e numa infinidade de outros, o corpo humano está em movimento. E o Pai da Ciência Moderna, Galileu Galilei (1564–1642), já disse, há cerca de quatro séculos, que a condição natural do corpo é o movimento.
Na UEL, o NEMO – Laboratório de Neurociências Motoras – existe há 17 anos e é o local onde esta Ciência interdisciplinar estuda como o sistema nervoso central planeja, executa e controla os movimentos do corpo. Coordenado pelo professor Victor Hugo Alvez Okazaki (Departamento de Educação Física), o Laboratório objetiva formar recursos humanos para atuação na área das Neurociências Motoras para o entendimento do Controle Motor. Os participantes integram grupos de estudo e recebem treinamento para atuação nas áreas de Controle Motor, Aprendizagem Motora, Desenvolvimento Motor e Biomecânica. Também manuseiam equipamentos de Eletromiografia, Eletroencefalografia, Cinemetria, Fotogrametria, TDCs, Eletroestimulação, Plataforma de Força, Plataforma de Pressão, Plataforma de Equilíbrio Instável, entre outros.
Os participantes do NEMO são estudantes de Iniciação Científica Júnior, Iniciação Científica, Mestrado, Doutorado e Pós-Doutorado. Como se trata de um Projeto de Formação Complementar, envolve ensino, pesquisa e extensão. Por isso, entre outras atividades, realizam estudos de artigos científicos, apresentam seminários, publicam trabalhos, levam a Neurociência Motora a duas escolas de Londrina (Saint James e Colégio de Aplicação), iniciam seus alunos nos caminhos da Ciência, ensinando-os a coletar e analisar dados, e elaborar um projeto, entre outros pontos. Assim, qualificam sua própria formação.
Falar em “foco do estudo” do NEMO é um pouco complicado, à medida que os referidos atos, triviais ou não, que requerem movimentos do corpo humano são simplesmente incontáveis. A Neurociência Motora avança a largos passos, mas há muito ainda o que descobrir, analisar, estabelecer associações. Uma realidade que desafia os pesquisadores e produz vasta literatura. Só o professor Victor Hugo tem cerca de 120 artigos e mais de 350 resumos publicados, em eventos e periódicos (inclusive internacionais) de alto impacto. Ele vem estudando a área desde seu Mestrado, defendido em 2006. Outro desafio da área, em sua avaliação, é unir teorias clássicas a certas funções do corpo.
A disseminação das pesquisas é ampla e atravessa fronteiras. Um estudante de Iniciação Científica Júnior apresentou um trabalho em Londres, no LYSF (sigla em inglês para Fórum Internacional de Ciências para Jovens). De outro lado, o professor Victor Hugo fala de estudantes estrangeiros interessados no NEMO. Pesquisadores do Chile, Paquistão e Irã (os asiáticos estão estudando português para vir) entraram em contato com o professor. E, segundo este, não chegaram até ele só pelos muitos artigos publicados, mas também pelo Instagram e canal no You Tube.
Além disso, o professor tem em sua bagagem a experiência de editar o Brazilian Journal of Motor Behavior (BJMB). É uma publicação da Sociedade Brasileira de Comportamento Motor (SOCIBRACOM) que existe desde 2006. Sociedade, aliás, do qual Victor Hugo é membro e nesta condição participou e ajudou a coordenar eventos como o Congresso Brasileiro de Comportamento Motor. O próximo será em 2028, no Ceará.
Do circo à viola
O professor Victor já orientou 10 dissertações de Mestrado e sete de Doutorado defendidas. No momento, orienta quatro pesquisas de Mestrado. Dentro das linhas de pesquisa do Laboratório, cada um tem desenvolvido seus próprios estudos. Isso inclui, entre outros, estimulação transcraniana por corrente (elétrica) contínua; assimetria laterais corticais e de desempenho (lateralidade e eletroencefalografia), biomecânica e controle motor de habilidades esportivas (arremesso no basquetebol e cobrança de pênalti no futebol), controle postural e equilíbrio, e treinamento perceptivo.
Todos estes nomes técnicos designam os mais diferentes atos de movimento humano. O caso do pênalti, por exemplo: é possível calcular probabilidades em torno do chute do jogador, levando em conta múltiplos fatores, do campo à preferência de quem vai chutar. Será com a esquerda? E se houver finta? O professor lembra um detalhe interessante: o jogador “canhoto”, que chuta com a esquerda, faz isso na verdade porque a perna direita lhe garante equilíbrio e estabilidade.
No Centro de Educação Física da UEL, vários testes de arremesso de basquete foram feitos e analisados. Uma simples mudança no ângulo de arremesso, por exemplo, exige ajustes na força e velocidade do arremesso. E tudo passa pelo cérebro. O mesmo ocorre numa luta: os atletas tomam decisões rápidas levando em conta suas próprias capacidades e as do adversário. Tais estudos fazem parte do treinamento perceptivo. Tudo é gravado em vídeo, analisado pelos programas de computador, e conhecimento é produzido.
Já foi possível, segundo o pesquisador, determinar quais práticas esportivas melhoram a condição motora do corpo, conforme os critérios neurocientíficos balizadores: motocross, skate, parkour, ginástica rítimica. Além do circo. Já corrida e dança (jazz) tiveram menos sucesso. E para quem não larga das telas, jogo é menos pior do que reels.
As pesquisas, porém, não são só sobre esporte. Entra, por exemplo, a chamada preferência de cada indivíduo. Existem pessoas que escrevem com a mão direita, mas seguram o celular com a esquerda. Começam a subir uma escada com o pé esquerdo (a escada de Santos Dumont não o permite), mastigam mais do lado direito, sentam-se em posição de lótus ou cruzam as pernas, gesticulam mais ou menos ao falar, dirigem um carro só com uma das mãos ao volante o tempo todo (não pode!). Até a posição dos instrumentos de corda, de acordo com Victor Hugo, seria mais eficiente do ponto de vista motor se fosse ao contrário. Mas, por uma questão cultural, viola e violão ficam orientados para a esquerda.

Como se vê, não há limite para as possibilidades de estudos da Neurociência Motora. Ao contrário, isso garante uma variedade sem fim de pesquisas e de produtos. Um exemplo de destaque é o IPLAG – Inventário de Preferência Lateral Global. É um amplo mapeamento da lateralidade (destro, canhoto, ambidestro) a partir de tarefas cotidianas, que ainda será publicado. Outro, são as plataformas de pressão e de equilíbrio: artefatos sobre os quais os colaboradores sobem e se movimentam para testar, por exemplo, o equilíbrio, modificando algumas condições, como o grau de inclinação. Na avaliação de Victor Hugo, são ferramentas de baixo custo e geradoras de dados normativos, ou seja, novos conhecimentos aplicáveis a situações semelhantes.
Cabe observar que o desenvolvimento tecnológico também é item importante da pauta de pesquisa. O próprio Victor Hugo desenvolveu os softwares e até os hardwares utilizados nos testes realizados nos colaboradores. Já são mais de 20 softwares, dos quais a metade registrados, e um pedido de patente pela AINTEC/UEL (a plataforma de equilíbrio). Além do uso de equipamentos como Ressonância Magnética e Eletroencefalograma.




