Doutoranda indígena descobre novas espécies de peixes naturais da Bacia Amazônica
Doutoranda indígena descobre novas espécies de peixes naturais da Bacia Amazônica
Claudia Tupinambá pesquisa o status de ameaça do aracu cabeça-gorda, cada vez mais escasso em sua região.Ao longo de abril, a presença dos povos originários na Universidade Estadual de Londrina (UEL) é celebrada com uma programação que envolve os saberes tradicionais, artes, ciência e conscientização. Quatro estudantes indígenas se formaram mestres na instituição nos últimos anos, sendo que, atualmente, a pós-graduação conta com três mestrandos e quatro doutorandos. Entre eles, estão Kunhã Nimboweradju e Claudia Tupinambá, que foram inspiradas a se dedicar a carreira acadêmica em face de problemas enfrentados em suas comunidades.
Engenheira de pesca, Claudia Tupinambá pertence ao povo Tupinambá do Baixo Tapajós, no oeste do Pará. A sua pesquisa de doutorado realizada na UEL no âmbito da Pós-graduação em Ciências Biológicas (PPGCB), tem como foco a diversidade, evolução e biogeografia do complexo Leporinus friderici, peixe popularmente conhecido como aracu cabeça-gorda ou piau-três-pintas.
“Eu costumo dizer que, na minha comunidade, antes nós comíamos peixe no café da manhã, almoço e na janta. O peixe sempre esteve muito presente na minha vida, faz parte da cultura do meu povo e é a principal fonte de proteína de muitos povos, principalmente amazônicos”, informou a doutoranda. O aracu cabeça-gorda era muito consumido na região de Tupinambá, porém, vem se tornando cada vez mais escasso devido a múltiplos fatores, como a alteração dos ambientes naturais, ação de hidrelétricas, desmatamento, garimpos e dragagem dos rios.
Assim, a engenheira estuda a biologia, sistemática e distribuição deste grupo de peixes para entender como estes processos de diversificação ocorreram ao longo do tempo, além de poder descobrir e registrar espécies ainda desconhecidas pela ciência antes que elas sejam extintas. “A simples ocorrência dessa espécie em drenagens distintas, algumas delas isoladas há milhares de anos, sugere a presença de um complexo de espécies, uma hipótese que tem sido corroborada. As informações resultantes desse trabalho serão importantes para estudos de conservação, já que permitirão, pela primeira vez, a determinação da distribuição de cada uma das espécies e de seu status de ameaça. Afinal, não conservamos o que não conhecemos”, completou Tupinambá.

Definição de novas espécies
O projeto foi iniciado em 2023 e, ao final da pesquisa, prevista para 2027, a doutoranda busca ter cumprido três objetivos principais:
- A descrição de espécies novas do complexo Leporinus friderici, incluindo uma recentemente descoberta no rio Teles Pires, no Mato Grosso;
- A revisão taxonômica completa do grupo Leporinus friderici com base em dados morfológicos e moleculares;
- Um estudo sobre a evolução e biogeografia das espécies do complexo Leporinus friderici.
Até o momento, ela confirmou as duas primeiras metas. “Estou finalizando a descrição e redescrição de duas espécies próximas ao grupo. Com a análise dos resultados morfológicos e moleculares, obtivemos pelo menos cinco unidades taxonômicas bem definidas, ou seja, pelo menos cinco novas espécies. Um artigo será feito para redescrever a espécie tipo Leporinus friderici, a espécie verdadeira”, adiantou.
Tupinambá realiza parte da pesquisa “Diversidade, evolução e biogeografia do complexo Leporinus friderici Bloch, 1794 (Characiformes, Anostomidae)” em parceria com Cláudio de Oliveira, docente no câmpus de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp), por residir no município. Na UEL, ela é orientada pelo professor José Luís Olivan Birindelli, que foi seu coorientador durante o mestrado, realizado em Altamira, no Pará. Na época, a indígena trabalhou com uma espécie de Leporinus do rio Xingu, que atravessa o Mato Grosso e o Pará, com o resultado gerando a descrição de uma nova espécie, que está em preparação.
O complexo de espécies tema de seu doutorado é amplamente coletado, e assim, Tupinambá utiliza exemplares de coleções ictiológicas e museus para promover análises próprias.

Além da academia
Integrante da Comissão Universidade para os Indígenas (CUIA) e professor do Departamento de Serviço Social, Wagner Amaral pontuou que as pesquisas realizadas por pós-graduandos indígenas estão muito associadas às políticas públicas que são desenvolvidas nas comunidades dos autores, elencando “a educação escolar indígena, a saúde indígena, as políticas de assistência social ou a própria política de educação superior indígena, as reflexões sobre permanência na universidade e a articulação com as mulheres indígenas”.
Desta forma, o que é produzido na universidade reverbera nos territórios, “dando um retorno e tendo uma organicidade com as demandas das próprias comunidades”. Amaral informou que uma reunião foi realizada com a Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PRoPPG) para discutir a proficiência da língua portuguesa para estudantes indígenas que são bilíngues.
“Também há um desejo de que as bancas sejam realizadas nos territórios para que isso também gere um impacto para os jovens indígenas e a comunidade tenha acesso ao conhecimento produzido. Isso acaba gerando uma troca dos próprios estudantes indígenas com os seus pares, na participação dos eventos acadêmicos, o que tem sido bem importante”, celebrou o professor.
Indígenas na pós-graduação da UEL
Mestres formados
- Gilza Ferreira de Souza Felipe Ferreira, da etnia Kaingang
Título da pesquisa: “Mulheres Avá-Guarani no Oeste do Paraná: A Educação Superior Indígena enquanto espaço de resistência” – mestre pelo PPG em Serviço Social e Política Social
Ano de início: 2018
Ano de término: 2021
- Jaqueline de Paula Sabino, da etnia Kaingang
Título da pesquisa: “Professores indígenas de Geografia: limites e potencialidades acerca de suas formações acadêmicas e o desenvolvimento de uma geografia intercultural” – mestre pelo PPG em Educação
Ano de início: 2022
Ano de término: 2024
- Joaquim Adiala Hara, da etnia Guarani
Título da pesquisa: “Jagueroguata Mbo’e Hao Ñande Rekoitepe Gestão Própria da Escola Indígena Guarani Ñandeva no Tekoha Porto Lindo/Yvy Katu de Japorã/MS” – mestre pelo PPG em Educação
Ano de início: 2024
Ano de término: 2026
- Damaris Kaninsãnh Felisbino, da etnia Kaingang
Título da pesquisa: “Reflexões a respeito do sistema ortográfico do Kaingang: uma proposta de pesquisa” – mestre pelo PPG em Estudos da Linguagem
Ano de início: 2020
Ano de término: 2022
Mestrandos
- João Vitor Gomes de Oliveira, da etnia Kaingang
Título da pesquisa: “Processos de revitalização da língua kaingang na Terra Indígena Barão de Antonina” – mestrando pelo PPG em Estudos da Linguagem
Ano de início: 2025
Ano de término: 2027
- Ivone dos Santos Piraí
Título da pesquisa: “As trajetórias de indígenas assistentes sociais na gestão da política de assistência social” – mestranda pelo PPG em Serviço Social e Política Social
Ano de início: 2025
Ano de término: 2027
- Kunhã Nimboweradju, da etnia Guarani Nhandewa
Título da pesquisa: “Aleitamento Materno em Mulheres Indígenas” – mestranda pelo PPG em Enfermagem
Ano de início: 2025
Ano de término: 2027
Doutorandos
- Gilza Ferreira de Souza Felipe Ferreira, da etnia Kaingang
Título da pesquisa: “Mulheres Avá-Guarani no Oeste do Paraná: A Educação Superior Indígena enquanto espaço de resistência” – doutoranda pelo PPG em Serviço Social e Política Social
Ano de início: 2026
Ano de término: 2030
- Joaquim Adiala Hara, da etnia Guarani
Título da pesquisa: “Peicha Romombe’u Hã Rombohasa Ore Arandu (Nosso Jeito de Contar e Transmitir Nossa Sabedoria, Nossa Literatura) Guarani Ñandeva Na Tekoha Yvy Katu de Japorã/MS” – doutorando pelo PPG em Educação
Ano de início: 2026
Ano de término: 2030
- Damaris Kaninsãnh Felisbino, da etnia Kaingang
Título da pesquisa: “Variação fonético-fonológica na língua Kanhgág: estudo geolinguístico nas Terras Indígenas do Norte do Paraná” – doutoranda pelo PPG em Estudos da Linguagem
Ano de início: 2026
Ano de término: 2030
- Claudia Sousa Chaves Tupinambá, da etnia Tupinambá
Título da pesquisa: “Diversidade, evolução e biogeografia do complexo Leporinus friderici Bloch, 1794 (Characiformes, Anostomidae)” – doutoranda pelo PPG em Ciências Biológicas
Ano de início: 2023
Ano de término: 2027
*Bolsista na Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação




