Marcas invisíveis da violência contra a mulher são tema de livro de pesquisador do CEFE
Marcas invisíveis da violência contra a mulher são tema de livro de pesquisador do CEFE
Romance resgata a história de superação de sua mãe contra a violência doméstica e demonstra como o luto transformou sua própria pesquisa científicaA literatura e a ciência frequentemente caminham por linhas paralelas mas, na trajetória do professor Crivaldo Gomes Cardoso Júnior, elas se encontram no afeto e no compromisso social. O autor acaba de lançar “Ana, Sob Minha Retina” uma obra independente que resgata a história de sua mãe, uma mulher que teve a vida atravessada pelas complexidades da violência doméstica e do julgamento social.
O lançamento aconteceu no último dia 3, na Réplica da Primeira Igreja Matriz de Londrina, no Campus da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e ocorre em Campos do Jordão (SP), no tribunal do Júri do Fórum, no próximo dia 17. Muito além de um diário pessoal ou de um registro de sofrimento, o livro do professor do Departamento de Educação Física (CEFE), é o reflexo de um amadurecimento que moldou tanto o caráter do escritor quanto a sua própria produção científica.

Para o autor, era fundamental que “Ana” não fosse um livro restrito às dores vividas por sua mãe, uma mulher que se manteve generosa, sensível e capaz de cuidar das pessoas mesmo quando ela própria precisava ser cuidada. “Ela tinha um olhar atento para o outro, um senso de humor muito próprio e uma força que não se expressava pela dureza, mas pela capacidade de continuar acreditando nas pessoas, apesar das experiências difíceis que viveu”, rememora Cardoso Júnior.
Presença transformadora
Separada na década de 1980 — período marcado por um severo estigma social para mães solo —, ela enfrentou agressões que, à época, eram naturalizadas e sequer tinham nome. “Embora o livro retrate episódios de violência, ele não é um livro sobre uma mulher definida pelo sofrimento. É um livro sobre uma mulher inteira. A violência atravessa sua história, mas não resume quem ela foi. Ela foi mãe, filha, amiga e uma presença transformadora na vida de muitas pessoas. Sua influência não vinha dos grandes discursos, mas da maneira como vivia, acolhia e cuidava de quem estava ao seu redor”, pontua o professor.
A obra nasceu justamente na intersecção entre o processo de elaboração do luto, o hábito da escrita e a vivência do autor como tutor na Residência Multiprofissional em Saúde da Mulher. Ao acompanhar a realidade de tantas pacientes e profissionais, ele passou a identificar, sob uma nova perspectiva teórica, as violências morais, patrimoniais e o gaslighting que testemunhara na infância dentro de casa. “Faltavam palavras para descrevê-las. Hoje nós temos essas palavras, mas ainda precisamos transformá-las em consciência. Eu não escrevi este livro para registrar memórias que fizessem sentido apenas para mim, como aconteceria em um diário pessoal. Escrevi porque compreendi que a história da minha mãe ultrapassava a esfera da minha família. Ao dar voz à trajetória dela, procurei também dar visibilidade às diferentes formas de violência que ainda atravessam, muitas vezes de maneira naturalizada, a vida de tantas mulheres”, contextualiza.

Da vivência pessoal à pesquisa científica
A relação entre a história de vida do docente e sua trajetória acadêmica é direta. O autor, que hoje desenvolve pesquisas focadas na saúde da mulher — especificamente nas áreas de climatério e exercício físico —, compreendeu cedo que o cuidado com a saúde não pode ser limitado à perspectiva biológica.
Ele conta que a história familiar influenciou naturalmente suas escolhas profissionais. “Nunca enxerguei a saúde apenas sob a perspectiva biológica. Sempre compreendi que cuidar de alguém significa também reconhecer sua história, seu contexto e suas vulnerabilidades. Talvez por isso minha atuação acadêmica e profissional tenha se aproximado, cada vez mais, da saúde da mulher”, analisa.
Na vida pessoal, Cardoso Júnior diz procurar fazer desse aprendizado um exercício diário, buscando estar mais atento ao impacto que palavras, atitudes e até os silêncios podem ter na vida de uma mulher. “Não considero esse um processo concluído, mas uma construção permanente. Talvez essa seja a maior herança que minha mãe me deixou: a disposição de continuar aprendendo e me tornando uma pessoa que busca ser melhor”, afirma.
A aproximação profissional com a área da saúde da mulher ocorreu antes mesmo da redação do livro. Foi essa bagagem científica e a atuação prática que forneceram os instrumentos necessários para que ele pudesse revisitar o passado, dando voz a uma trajetória que ultrapassa os limites de sua própria família para espelhar a realidade de tantas outras mulheres.
Confronto com o passado
O processo de dar vida a Ana levou anos de maturação emocional. Embora a escrita tenha se concentrado ao longo de alguns meses, reviver memórias da infância exigiu pausas e confrontos com o passado. Por se tratar de uma produção totalmente independente, o autor teve o controle sensível de preservar a essência da narrativa exatamente como ela precisava ser contada.
“Foi justamente essa vivência profissional que me permitiu revisitar a história da minha mãe sob uma nova perspectiva e compreender aspectos que, quando criança, eu ainda não tinha condições de interpretar. Minha produção científica busca contribuir para que as mulheres tenham uma assistência cada vez mais qualificada e baseada em evidências. O livro nasce desse mesmo compromisso, mas utiliza uma linguagem diferente. Enquanto a ciência produz conhecimento, a literatura desperta sensibilidades. Para mim, ambas podem caminhar juntas quando o objetivo é promover mais dignidade e cuidado”, assegura o autor.
Como homem, marido e pai de duas meninas, o pesquisador também enxerga a obra como parte de sua responsabilidade ativa no enfrentamento à violência de gênero. Para ele, os homens precisam romper o silêncio e rever comportamentos historicamente tolerados. O livro se posiciona, assim, como um convite à empatia e à escuta. “Educar também é um ato de exemplo. Espero que os homens tenham uma responsabilidade importante nesse enfrentamento. Não porque devam ocupar o lugar de fala das mulheres, mas porque grande parte dessas violências nasce justamente de comportamentos masculinos que foram, durante muito tempo, incentivados, tolerados ou naturalizados. Por isso, combater essa realidade começa por uma mudança de postura”, comenta. “Significa ouvir mais, julgar menos, reconhecer que sempre há espaço para aprender, rever comportamentos e não permanecer em silêncio diante de situações de violência”, completa.
Cardoso Júnior diz entender que não é possível assumir uma postura passiva e, muito menos, ser cúmplice, ainda que pelo silêncio, de uma realidade que continua atingindo tantas mulheres. “Esse também é um exercício contínuo para mim. Não considero que exista um ponto de chegada quando o assunto é aprender a respeitar, compreender e apoiar as mulheres. É um compromisso que procuro renovar todos os dias”, afirma. “Não acredito que um livro seja capaz de transformar sozinho uma realidade tão complexa. Mas acredito que a literatura pode sensibilizar. Ela nos permite habitar, ainda que por algumas horas, a vida do outro. Se o livro contribuir para ampliar esse olhar, já terá cumprido um papel muito importante”, avalia.
“Eu não escrevi este livro para permanecer na dor. Escrevi para compreender o percurso que me trouxe até aqui e para dar voz a histórias que, por muito tempo, permaneceram invisíveis. Se o livro emociona tantas pessoas, acredito que seja porque ele fala de algo que ultrapassa a história da minha família”, diz. Ao contar a história da sua própria mãe, o professor busca criar um espaço para que outras mulheres também possam ser vistas, reconhecidas e, sobretudo, ouvidas.
Serviço
Livro: Ana, Sob Minha Retina
Autor: Crivaldo Gomes Cardoso Júnior
Preço: R$ 79,10
Como adquirir: Produção independente disponível através do link na bio do perfil oficial do autor no Instagram: @cardosojr.crivaldo.
*Assessora especial na Coordenadoria de Comunicação/UEL




